quinta-feira, 25 de junho de 2015

Inconstância dos bens do mundo - Gregório de Matos, vulgo "Boca do inferno"!


 Moraliza o poeta nos ocidentes do Sol a inconstância dos bens do mundo
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Gisberta!



O mais mediático e chocante dos relatos e divulgação de crimes motivados por discriminação com base na orientação sexual, em Portugal, foi a morte de Gisberta Júnior, conhecida como Gis, em Fevereiro de 2006, no Porto. Gisberta tinha 44 anos, era brasileira, seropositiva, sem-abrigo e transexual. Em Portugal há 25 anos, estava já muito doente quando foi agredida. Foi espancada por um grupo de jovens durante três dias e atirada para o poço de um prédio em obras, onde acabou por morrer afogada. Os menores foram condenados por maus tratos a penas entre os 11 e os 13 meses de internamento - o Ministério Público deixou cair a acusação de homicídio por a autópsia não comprovar que as lesões causaram a morte. A decisão motivou muitas críticas por parte das organização de defesa dos direitos da população gay, lésbica, bissexual ou transgénero em Portugal, que consideram que este foi um "crime de ódio" e que a pena ficou muito aquém da gravidade da agressão.
Morte de Gisberta chocou o País

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os Ombros Suportam o Mundo Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança. 
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Os versos acima foram publicados originalmente no livro "Sentimento do Mundo", Irmãos Pongetti - Rio de Janeiro, 1940.  Foram extraídos do livro "Nova Reunião", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1985, pág. 78.

"Umas e Outras." - Chico Buarque.

Se uma nunca tem sorriso
É pra melhor se reservar
E diz que espera o paraíso
E a hora de desabafar
A vida é feita de um rosário
Que custa tanto a se acabar
Por isso às vezes ela pára
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Nossa, pra que tanta conta
Já perdi a conta de tanto rezar

Se a outra não tem paraíso
Não dá muita importância, não
Pois já forjou o seu sorriso
E fez do mesmo profissão
A vida é sempre aquela dança
Onde não se escolhe o par
Por isso às vezes ela cansa
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Puxa, que vida danada
Tem tanta calçada pra se caminhar

Mas toda santa madrugada
Quando uma já sonhou com Deus
E a outra, triste enamorada
Coitada, já deitou com os seus
O acaso faz com que essas duas
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua
Olhando-se com a mesma dor
Que dia! Nossa, pra que tanta conta
Já perdi a conta de tanto rezar
Que dia! Puxa, que vida danada
Tem tanta calçada pra se caminhar
Que dia! Cruzes, que vida comprida
Pra que tanta vida pra gente desanimar